Wednesday, September 13, 2006

Tuesday, March 07, 2006




Foi já a algum tempo atrás que vi "The Pillow Book" do Peter Greenaway e fiquei deveras fascinado com o trabalho caligráfico tendo como suporte os corpos. Deu-me até vontade de fazer uma tatuagem, mas ficou pela vontade.
É bem verdade que os avanços técnologicos da informática e da internet, toda a parafrenália em que só basta teclar trouxeram muitas vantagens. Mas também sei ver que ela ajudou a perder o significado profundamente individual que é o acto de escrever com caneta e papel. Eu próprio já fui afectado. A mão desabituada já não desliza tão fluídamente sobre a folha de papel. Ao ver estes trabalhos despertou-me a vontade de retomar o velho processo.
Tratam-se de trabalhos de Brody Neuenschwander.

Saturday, March 04, 2006

Ansiedades

É domingo e já a noite invade. Estou à janela e a cidade surge coberta de incontáveis luzes. Penso no que me trouxe a esta cidade. Um misto de sentimentos bons e amargos vêm ao de cima. É tudo tão denso e compreensivel agora que olho com distância para as coisas. A verdade é que ando um tanto ou quanto melâncolico porque é o meu último ano cá em Coimbra: estou na recta final. Digamos que vou atingir uma etapa: acabar a minha licenciatura e entrar em outro patamar, o desemprego. Sinto borboletas na barriga só de pensar que terei de procurar trabalho. A verdade é que estou mal habituado. Não vejo um futuro promissor e independente. Ao vir para esta cidade, criei a ilusão de que me tinha tornado mais autônomo mas a verdade nua e crua é que partirei basicamente como vim. Nunca tive preocupações económicas pois os meus pais sempre garantiram todas as minhas vontades. É para com eles que me sinto desapontado comigo como se os seus esforços tivessem sido em vão. Eu, a cria, ainda não ganhei asas suficientes para partir. Depois há os familiares que rondam o "ninho" para mandarem as suas considerações viperinas: detesto-os. São estas as vertigens que me ensombram o pensamento ou quase todas, também há as do foro afectivo. Esse também dependente desta cidade. Os sentimentos bons, as recordações de cumplicidade serão um dos meus mais preciosos tesouros. Conheci pessoas que irrevogavelmente partirão para outros lugares diferentes do meu mas mesmo assim estarão guardadas no conjunto das minhas experiências. A um outro plano, ainda mais íntimo estão as minhas relações amorosas. Essas foram definitivamente tortuosas, contudo não me arrependo como se costuma dizer "só me arrependo do que não fiz". Deveria reger-me mais por este axioma. Ainda sinto o coração a bater desreguladamente ao recordar tudo. É uma área na qual ainda sou imaturo. Se às vezes quero partir o quanto antes de Coimbra é por querer desenfreadamente começar de novo. Plantar o meu jardim sem os recantos sombrios do pensamento. Outro lado meu diz-me para telefonar-lhe e dizer-lhe que já esqueci. Gostaria que ele completasse o outro lado do texto, do nosso texto. No entanto, surgem as palavras que só trazem veneno e dúvidas. Sinto que nunca fui justo para ele e deixei-o culpabilizar-se. Não quero ser pedante, mas a minha fragilidade, os meus medos ou lá o que sejam mascaram-se sempre numa aparência glaciar e distante. Acho que foi isso que a principio o cativou. Apesar dessa intransponivel barreira houve momentos em que ele encontrava o meu pensamento e isso é o melhor nas relações. Mas a verdade (se é que ela existe para os homens) é que mesmo junto a ele, sob as condutas mais íntimas, o meu segredo insondável acendia-se obstinado. Acho que no fundo ganhei uma fixação com traços patológicos, um ciclo vicioso em que me fechei e que por certa altura julguei que ele seria a chave para trucidar esse deslocamento da minha parte. Ele olhava complacente. Em silêncio aceitamos o papel de cada um. Eu acedi precipitadamente ao jogo do faz de conta. No entanto, a ficção não pôde durar sempre e o quando o jogo das simulações caiu, começei contantemente a questionar-me se o amava ou amava a imagem que forçadamente lhe vesti. Para tornar a queda ainda mais irrevogável, ele partiu para o mundo dos da "Casa Amarela". E eu não me dei conta das suas vertigens em relação ao mundo. Não lhe dei a mão. Penso sempre se eu estivesse estado presente a tempo inteiro o podia ter ajudado. Agora depois do dilúvio compreendo certas palavras e momentos em que ele pedia por mim ou algo em mim que não sei dar nome, para além da amizade e do amor, um misto de banalidade e religiosidade. Julguei que implodiria na minha identidade e por isso neguei-me a dar-lhe... Já não quero falar mais sobre isto. Não há nada mais estéril do que falar sobre um amor morto. Novos tempos virão. Vou-me entregar à imagem, ao quadro da paisagem urbana que mostra a janela. Divagarei sobre os homens da lua. Imaginarei que desceram até mim e me contam as suas histórias. Chove lá fora. É água... a água tudo lava...tudo leva...e eles vieram de branco trazendo pó lunar em seu redor. Crituras altas e esguías que diziam...

Carta para Prisioneiro

Guardei-o durante um dia inteiro entre as minhas coxas. Mal acordei, o meu primeiro gesto foi pegar no pequeno lenço de seda azul e guardá-lo em mim. O resto do dia foi uma dupla existência pela minha parte. Encarar todos como sempre fiz e ao mesmo tempo recordar o meu pequeno gesto. Solitário e íntimo, impregnado dos meus odores. Isto para mostrar-te que não é impossivel superar as enormes distâncias que nos dispõem. Mando-te o lenço. Ficará contigo dentro da cela em que te puseste. Sempre que o teu sexo se erguer terás a marca do meu cheiro para saciar-te. Estou contente porque sei que te agradará.
Fico à espera.

Saturday, January 21, 2006

Entra a manhã gloriosa...terrivel
deixando tudo a descoberto
o ar expande-se
o corpo inerte dá os primeiros sinais de vida
tem remelas nos olhos
os lábios gretados de secura
a barba áspera...
E nunca esteve tão próximo de ser deus

Thursday, January 19, 2006

Para a criança de Vénus

É com os olhos virados para o seu segredo
O mistério do seu corpo
Que se interroga sobre o que está para vir
Sente-se criança mesmo com barba
O mesmo tremor
O mesmo medo
De quando em pequeno via a porta da rua aberta
E lá ia, pé ante pé, receoso e em alerta:
Um novo e cafre mundo se erguia
Sem a rede dos pais – A campânula que impedia ser atingido pela dor
Eram insuperáveis obstáculos:
Os cães sujos e escanzelados que atravessavam o seu caminho.
As outras crianças que lhe pareciam demasiado esfusiantes
Um canto ou travessa mais escura que o usual
Ou simplesmente um céu menos azulado e mais cinzento
Em suma, tudo lhe metia medo
E no entanto, eram apenas receios infantis
Hoje, deteve-se mais uma vez perante o espelho
Tem algo que se agita bem no seu insondável centro
Sente-se criança mesmo com os pesados e escuros círculos em torno dos olhos
O espelho devolve-lhe a inquietação que sente
De estar demasiado vazio e não conseguir suprimi-lo
Poderia uma onda nascer e atravessá-lo
Ser apenas o vidro que se interpõe entre a paisagem e o homem
Uma cópia ou negativo de alguém que existe verdadeiramente
Um desconhecido vagueando pelas cidades
Carregando nos mesmos olhos
A mesma criança que indaga o seu enigma
A mesma terminação da frase
O mesmo pensamento seguinte
A mesma palavra justa e procurada
O mesmo medo que sente
Quando as vibrações de vida decidem irromper furiosas

A criança não sabe mais porque tem medo
Mas sente-se criança, mesmo com barba e até voz grossa!
Quer a mãe
Mas ela não é a mesma
Ou ele é que não é o mesmo
Ou quer apenas o que ela lhe dava:
Um desenfreado amor
Tão grande e acima de todas a coisas
Que justificava matar

Hoje mais uma vez esperou
Esperou assustado
Esperou petrificado nos lençóis
Viu a manhã entrar terrível pela janela
Sufocou-lhe essa efervescência de luz
Sufocou-lhe esse indício de vida
A criança não pensou senão em fumar
Pois é um homem
E os homens fumam
Ressente-se dos malefícios desse hábito
Mas deixa-se fascinar pelo acto em si
Pelo véu tóxico atiçado a cada sorvo
Pela perenidade sinuosa e ascendente do fumo
E não pensa mais
Senão no dia em que desapareceu
Aquela vontade indómita de sair à rua.

Friday, July 29, 2005

Ooh La La (primeiro de single de Supernature, de Goldfrapp)

Dial up my number now
Weaving it through the wire

Switch me on
Turn me up
Don't want it Baudelaire
Just glitter lust
Switch me on
Turn me up
I want to touch you
You're just made for love

I need la la la la la la
I need ooh la la la la
I need la la la la la la
I need ooh la la la la...

Coils up and round me
Teasing your poetry
Switch me on
Turn me up
Oh child of Venus
You're just made for love

I need la la la la la la
I need ooh la la la la
I need la la la la la la
I need ooh la la la la...

You know I walk for days
I wanna waste some time
You wanna be so mean
You know I love to watch
I wanna love some more
It'll never be the same
A broken heel like a heart
I'll never walk again

Yeah!

I need la la la la la la
I need ooh la la la la
I need la la la la la la
I need ooh la la la la...

Thursday, July 28, 2005

O Gigante

Nunca digas adeus!
Pois, um Gigante que parte
Também pode voltar
E nem a tua armadura servirá,
Quando te cerrar nos seus braços
E como antes,
Reclamar-te a boca para juntar à sua:
Vigorosa, carnuda
E insinuante,
A soprar em ti o seu nefasto ser:
Um precioso segredo,
um mistério do corpo, da carne...
E mais uma vez...
Agarra-te, crava-te por inteiro
como se nunca mais te deixasse para partir.